Los Toperas

Jornalismo, videogames e seres abjetos

26 abril 2005

Racismo no futebol: imprensa argentina x imprensa brasileira

A cobertura feita pelo site do jornal argentino La Nación sobre o caso de racismo do jogador Leandro Desábato contra o brasileiro Grafite foi abordado de forma muito sóbria e neutra. No dia 14 de abril, um dia após o jogo, o site publicou apenas uma pequena nota sobre a detenção do jogador. Porém, no dia seguinte, fez um extenso relato no qual contava os detalhes do ocorrido. Citou o comentário feito por Marcelo Tas, no qual o jornalista afirma que o tratamento dado ao caso foi exagerado porque, segundo ele, os futebolistas se xingam freqüentemente em campo e nem por isso eles são presos devido a eventuais ofensas. Um artigo do dia 15 de abril aponta que as ofensas racistas não devem ser entendidas como reações normais tomadas no calor do jogo e que as punições para esse caso também são severas. O jornal Lance! foi citado pelo site argentino e também o ex-jogador Tostão, que pensa que o episódio foi tratado de forma exagerada. La Nación fez questão de publicar opiniões de ambos os lados a fim de manter a imparcialidade. Ele não se limitou a noticiar o que todos estavam colocando em evidência, no caso, as injúrias em si, mas expandiu o campo da discussão para os tempos de escravidão no Brasil e a manipulação exercida pelo narrador Galvão Bueno. A idéia não era atribuir o ônus do ocorrido a nenhuma pessoa ou entidade, e sim analisar de forma jornalística e apurar os fatos para que as providências necessárias fossem tomadas.
O site do periódico El Clarín pôs a culpa no Brasil para a demora na soltura de Desábato, alegando que a história alucinante demonstra o peso da burocracia brasileira quando se fala de trâmites formais. O pagamento da fiança devia ter sido feito antes das 19 horas, o que não foi possível devido ao trânsito da cidade. Por isso o jogador não foi liberado. O jornal destaca as frases de maior impacto, como “o jogador foi algemado”, além de algumas declarações que sugerem que eles estão “sendo discriminados por serem argentinos.” Apesar de afirmar reiteradas vezes que a atitude de Desábato foi equivocada, o Clarín colocou a palavra “Escândalo” como chapéu das matérias, além de se esforçar por transmitir uma imagem de bom moço do jogador por meio de entrevista com Lucía, sua mãe. No dia 16 de abril, foi noticiada a liberação do jogador juntamente com declarações de membros do elenco do Quilmes, os quais acreditam que Grafite não era nenhum santo, além de denúncia do vice-presidente do time argentino. Ele alega que torcedores do São Paulo cuspiram em sua direção e o xingaram, mas que ninguém da polícia atendeu as suas acusações. As reportagens sobre o tema seguem até o dia 24 deste mês. Neste dia, o site traz uma foto na qual se vê uma faixa com os seguintes dizeres: Desábato, ídolo – agora já sabe porque não há anjinhos negros no Céu. De modo geral, as matérias do site de El Clarín tomaram o partido do defensor argentino e tentaram afastá-lo de toda a culpa, considerando o tipo de insulto proferido a Grafite como algo corriqueiro, que faz parte do dia-a-dia do futebol.
A cobertura da Folha de São Paulo no caso Desábato se diferenciou um pouco das demais. O jornal não ficou focado somente na repercussão do acontecimento, mas apresentou reportagens que ajudaram o leitor a compreender o caso. Na mesma semana do ocorrido, a Folha mostrou o resultado de três exames que mandou fazer do vídeo da TV Globo em que Desábato xinga Grafite. O jogador do São Paulo alega que Desábato o ofendeu, discriminando sua cor. Porém, os peritos consultados pela Folha afirmaram que não conseguiram identificar, por leitura labial, as palavras que Grafite disse que ouviu. A capa do caderno de quinta-feira (21/04) foi “Leitura labial é contestada; amigos de Grafite recuam”. É uma referência à retratação de duas testemunhas, um amigo e o assessor de imprensa do brasileiro, com relação ao xingamento de Desábato. Na sexta-feira, a Folha anunciou que a ofensa não foi relatada na súmula da partida. Ainda segundo o jornal, uma testemunha de Grafite disse que o jogador foi pressionado pela diretoria do São Paulo para dar a queixa e disparou que havia um acordo entre a polícia paulista e o clube. Dessa forma, a Folha de São Paulo buscou se aprofundar em torno do caso, mostrando ao leitor todos os lados da questão.
O Estado de S. Paulo tratou de informar o caso Desábato da maneira mais fria possível. Pouquíssimas matérias especiais foram feitas (sobre racismo) e o jornal tratou apenas de ficar “preso” ao acontecimento. Foram ouvidos diversos jogadores e perguntado a eles o que acharam da atitude da prisão do argentino. A imparcialidade do Estado ficou nítida na medida em que mostrou não só a opinião de atletas brasileiros, como também dos conterrâneos de Desábato. O técnico do Corinthians Daniel Passarela e o polêmico craque Diego Armando Maradona foram dois argentinos que tiveram suas declarações nas páginas do jornal. Interessante ressaltar, também, que por meio dos editoriais e colunas (Antero Greco e Ugo Giorgetti dedicaram todo o espaço ao assunto), os jornalistas brasileiros se mostraram contra a prisão de Desábato. A alegação é que o acontecido é um fato trivial no futebol. As poucas matérias especiais que o jornal preparou não saíram no caderno de Esportes e, sim, no Aliás, que tem exatamente esse papel de aprofundar os fatos mais importantes da semana, e só sai aos domingos.
Alexei Barros, Cláudio Prandoni, Fernando Chiari e Gustavo Hitzschky

06 abril 2005

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